Fantasmagoria
Há um fantasma na minha casa. As paredes estão poluídas de fluidos espectrais que resistem a detergentes e desincrustantes dos mais potentes. Tenho sido assombrada dia e noite, à beira do fogão e quando abro a geladeira. Temo o corredor curto, os guarda-roupas entreabertos, as portas fechadas que guardam sustos.
Estamos sempre nos esbarrando. Das últimas vezes, os gritos e soluços que escaparam de minha garganta foram tão altos que comecei a antecipar a sirene cortando o silêncio, os vizinhos cochichando atrás das frestas, a mão pesada da polícia batendo à minha porta.
— É uma tentativa de assassinato?
— Não, senhor. É apenas um fantasma. Já está morto.
E eu continuaria assombrada.
Tenho pensado nos dias como uma sucessão de eventos os quais não tenho tido forças para vivenciar. Sento-me com meu fantasma no café da manhã, no almoço e no jantar, perguntando-me por que ainda insisto em mastigar o tempo. A comida perdeu o sabor há algum tempo. Não existem sobremesas em uma vida de assombro.
Em noites de espanto formidável, tomo dois ou três comprimidos e o proíbo de invadir meu sono. Tranco as janelas, fecho as cortinas da memória. Escondo de mim mesma as fotografias invisíveis que ainda me ferem. Não sonho com nada. A escuridão me conforta até que a luz me arranque de volta, absolutamente contra a minha vontade.
Acordada, eu o vejo. É mais lindo do que eu poderia imaginar. Ele se parece tanto com você. Ele sorri com o seu sorriso; ele chora com os seus olhos. Peço que diga qualquer coisa, qualquer sílaba, um ruído mínimo que me devolva a certeza de que um dia você foi real. Mas ele se cala. O silêncio é tudo que tenho. Tento tocá-lo, mas é impossível. Ele já morreu.
Amor, tento reproduzi-la a partir da arte com minhas próprias mãos, mas não basta. Atravesso a pintura, a literatura e o cinema. Todas as superfícies trazem versões incompletas de você. As tintas escorrem como as minhas lágrimas diárias. As palavras falham e se espatifam chão afora, pobres e inúteis. Estou presa na melancolia repetitiva de um filme triste e infindável, cuja última cena nunca chega. Nada basta. Não basta.
A arte não pode me salvar.
De mim, nada restou — nada que valha à pena assombrar.
Esse fantasma também partirá, assim como você. E quando isso acontecer, será o fim, amor. Hoje, não sou nada senão o peso da sua ausência.
Busco nas árvores, nos céus e nos rios o esplendor que estourava em meu peito quando estávamos juntas. O futuro, amor, tornou-se uma consequência ruim do meu viver. Você era a minha certeza, mas eu estava errada. Eu estava tão errada.
Que pena.


